L'art de la chanson

L'art de la chanson : d'une part, l'expression "L'art de la chanson" peut tout de suite projeter une image prétentieuse, cryptique ou barbante. D'autre part, je soupçonne qu'aujourd'hui la chanson n'intéresse probablement pas grand monde.

Si toutefois vous vouliez bien venir m'accompagner, je voudrais vous emmener là où je suis arrivé, là où je me suis installé. C'est un endroit qui n'est pas conceptuel mais plutôt vivant et sensuel. Vous venez ?

Voilà comment ça se passe. Prenons une chanson, une chanson qui existe déjà, connue ou pas. Elle m'approche et cherche en moi une émotion, un état, un rythme, une couleur propre à cette rencontre.

L'émotion de cette rencontre est en général assez différente de celle de la version originale de la chanson. Une chanson connue, parfois me révèle une substance qui n'était pas présente dans la version originale, une émotion qui restait enfouie. C'est à peu près comme ça avec chaque reprise que je essaie de faire mais ça ne marche pas toujours.

 

Je peux rater ces rencontres de deux façons : soit ma reprise ressemble beaucoup trop à l'originale ou alors ma reprise est différente de l'originale mais il lui manque de l'âme, de la substance, une vérité serait restée cachée sous les décombres de mes essais.

 

En fait, cette rencontre entre moi et la chanson est un dialogue. C'est la chanson qui a l'initiative, surtout au début. Elle me demande, elle me critique, elle joue avec moi. Pas n'importe quelle chanson sait faire ça. Ça leur demande un certain art. C'est cela que j'appelle l'art de la chanson.

 

Nous avons parlé des reprises. Et les compositions originales ? Là, il ne s'agit pas d'une rencontre avec une chanson connue mais avec une dont l'existence est à ce moment là encore inconnue, peut-être un peu comme la forme que le sculpteur devine dans un bloc de pierre.

 

A l'instar de la chanson connue, l'inconnue qui peu à peu se révèle est aussi demandeuse. Elle émerge déjà critique vis-à-vis de comment je la dévoile, me fait prendre des chemins qui me forcent à faire demi-tour, me fait moduler, me force à répéter un motif ou au contraire, me l'interdit de le faire. Elle joue avec moi.

 

Je voudrais bien qu'on soit des partenaires mais non, elle décide. Et encore, même quand c'est décidé, même quand je me dis que ça y est, c'est fini, elle revient le jour même, ou quelques jours, semaines, mois ou même des années plus tard pour me dire que, bien-sûr, il manque encore une partie ou qu'il faut enlever ou changer le début, elle a toujours des bonnes raisons pour vouloir être transformée.

 

Mais je dois dire, elle fait ça avec douceur, en provoquant des décharges d'endorphine et probablement des phénomènes dont j'ignore le nom et qui restent mystérieux. Quel art ! Cet art qu'elle a de jouer avec moi, c'est vraiment l'art de la chanson.

 

Je soupçonne que vous ne pensiez pas arriver ici. Mes rencontres avec les chansons sont aussi comme ça.

Note : J'ai remarqué que les chansons commencent à mieux me connaître et à me dire des choses qu'elles n'ont pas dit aux compositeurs.

A arte da canção

 

A arte da canção: primeiramente a expressão "arte da canção" pode imediatamente projetar uma idéia de algo complicado, pretensioso e chato. Além do mais, creio que hoje em dia poucos se interessam pela canção.

 

Se contudo você topar me acompanhar, eu gostaria de levá-lo onde me instalei. Não é um lugar conceitual. Ao contrário, é lugar vivo e sensual. Então, você vem?

 

Vejamos como as coisas se passam. Peguemos uma canção, uma que já exista, muito conhecida ou não. Ela se aproxima de mim procurando e despertando uma emoção, um estado, um ritmo, uma cor especifica a esse encontro.

 

A emoção desse encontro é em geral bem diferente daquela da versão original da canção. Uma canção conhecida às vezes me revela uma substancia ausente na versão original, uma emoção que permanecia oculta. É mais ou menos assim pra cada cover que eu tento fazer mas nem sempre dá certo.

 

Eu posso falhar de dois jeitos: o cover pode parecer excessivamente com o original ou então o cover é bem diferente do original mas lhe falta alma, lhe falta substância, uma verdade teria ficado soterrada nos escombros das minhas tentativas.

 

Na verdade esse encontro entre eu e a canção é um diálogo. A canção toma a iniciativa principalmente no começo. Ela me pede, me critica, brinca comigo. Não é qualquer canção que sabe como fazê-lo. Isso requer uma certa arte. É o que justamente chamo a arte da canção.

 

Nós falamos de covers. E as composições originais? Nesse caso não se trata de um encontro com uma canção conhecida mas com uma cuja existência nesse momento é ainda não mais que uma potencialidade, talvez como a forma que o escultor adivinha num bloco de pedra.

 

Como no caso da canção conhecida, a desconhecida que pouco a pouco se revela é também muito exigente, sempre pedindo. Nem bem começa a emergir e já é critica em relação ao meu modo de lhe expor, me leva a seguir caminhos sem saída, me obriga a modular, a repetir um motivo, ou então me proíbe de fazê-lo. Ela brinca comigo.

 

Eu gostaria que fôssemos parceiros mas não, é ela que decide. E mesmo quando está decidido, mesmo quando eu me dou conta que a canção está pronta, dias, semanas, meses ou até anos mais tarde, ela me diz que, claro, falta uma parte, ou então que é necessário tirar ou mudar o começo, ela sempre tem boas razões pra querer ser transformada.

 

Devo contudo admitir que ela faz isso com doçura, provocando liberação de endorfinas e provavelmente a aparição de outros fenômenos cujo nome eu desconheço e que permanecem misteriosos. Que arte! Essa arte que ela tem pra brincar comigo é realmente a arte da canção.

 

Eu imagino que você não imaginava que iria chegar aqui. Meus encontros com as canções são exatamente assim.

Nota : reparei que as canções estão começando a me conhecer melhor e a me dizer coisas que não contaram aos compositores.